de repente

quando ela não existe, a gente reclama. quando existiu, o comercial das casas lux ótica ecoa: quem nunca teve não sabe o que é perdê-la. trocando o não teve, é claro, pelo teve (e soube o quanto foi bom). por ela, a gente se desbobra, tenta, inventa, faz um 92 diferente até na véspera do 2009. mesmo que a gente nem saiba direito como ela é, tampouco tenha noção de tudo que pode se encaixar no que cabe nela.
de repente, você começa a desenhar (com a barriga, e não com os olhos), transforma um modelo vivo num monstro que visitou o egito em alguma época da vida. tenta reproduzir, em apenas três minutos, braços pra cima, corpo inclinado, mãos entrelaçadas. ahhhh, não consigo, não consigo. ele chega e diz pra você se soltar. com a barriga, não com os olhos, tentando reproduzir a forma do cabelo preso por um pitó, deixando a mão inventar.
você desenha, desenha, desenha. primeiro, cada pose dura dez minutos. depois, três minutos. e o rabisco às vezes nem se completa, mas você tá ali. e só ali, como não acontecia desde que a vida se tornou essa coisa fragmentada.
e aí você se dá conta do que acabou de chegar: felicidade, o sujeito oculto desse texto. felicidade leve, simples, transbordante, intensificada ou prolongada pela cena de um velhinho tocando “bandeira branca, amor / não posso mais / pela saudade que me invade, eu peço paz”, no sax, na esquina da firma.
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