entrevista: tomaz alves souza

23Jun08

conheci tomaz na aula de inglês. ele era um menino calado, calado, você mal ouvia ele dizer “the book is on the table”. mas ele tinha uma camiseta que eu adorava. era bowie, na capa do low. não sei quantas vezes ele usou aquela camiseta pra ir pra aula. mas foi o suficiente pra que, um dia, eu criasse coragem pra puxar papo com ele. coisa do tipo “legal essa tua camiseta, hein”. a gente trocou umas poucas palavras, e eu, com a cara de pau característica da adolescência, pedi pra ele gravar uns discos de bowie pra mim. e ele gravou váaaaarios, com capinha colorida e tudo. foi aí que um monte de música de bowie entrou pro meu top five da vida.

eu sabia que tomaz tinha uma banda desde sempre, profiterolis. todo mundo em recife falava do profiterolis, era um mito quase, pois você nunca ouvia a banda tocar ao vivo. aí teve um dia que eles fizeram um show num hotel decadente em boa viagem. daqueles lugares cheios de espelhos, bar estilo coquetel e um piano de cauda no meio do salão. nem sei se isso foi antes ou depois da aula de inglês, mas sei que gostei do profiterolis desde aquele dia.

depois de um tempo, fui a vários shows da banda. fabão tocava balde, aquele mesmo, da área de serviço, no meio das músicas. era massa. e eu gostava era de cantar “esse licor de jenipapo já tá no papo”.

agora vocês param de ler e vão ouvir o myspace: www.myspace.com/profiterolis

ouviram? muito bom, né?

voltando. tomaz é o cara da camisa do bowie, dos cd-rs com canetinha e capa colorida, do profiterolis. mas tomaz também é o cara da trilha de “cinema, aspirinas e urubus”, filme de marcelo gomes. e, também, de várias outras trilhas, como a de “uma vida e outra”, de daniel moloko. tomaz fez o “tema de nara”, uma das músicas mais lindas que já ouvi.

outra pausa pro myspace: www.myspace.com/tomazalvessouza

por isso tudo, quis entrevistar esse menino. nos idos de janeiro, mandei umas perguntas pra ele. ele me respondeu rapidinho, mas eu num respondi de volta, relapsa com a outrora abarrotada caixa de entrada… segue aqui o que ele disse. e espero atualizar o post assim que ele responder o resto, se ele ainda lembrar disso… =)

1. como tu começou a fazer trilha pra cinema? o que tu já fez até agora na área?

tomaz – o primeiro convite eu recebi por intermedio de Daniel Aragão, diretor daqui de Recife, que me chamou pra fazer um teste para o “Cinema, Aspirinas e Urubus”. quando ele me chamou o pessoal ainda estava em fase de ensaios e preparação para viajar para a locação e filmar, mas precisavam de dois temas musicais para uma cena e eles já queriam testar a música nos ensaios. daí eu compus dois temas a partir de um trecho do roteiro, pq no caso eu não tinha acesso a nenhuma imagem do filme ainda.

depois, no decorrer da produção do filme, eu fui chamado para complementar outros momentos da trilha. até aquele momento as poucas pessoas que conheciam meu trabalho só sabiam do que eu já vinha fazendo pra banda/ Profiterolis, Daniel é um amigo próximo e a gente sempre conversou sobre música e cinema. acho que ele talvez fosse o único já envolvido com cinema que tinha a percepção de que eu também poderia desenvolver alguma coisa nesse outro meio, porque naquele época eu não tinha nenhum contato com o pessoal daqui que trabalha com cinema.

depois do Aspirinas surgiram outros convites, pelo fato mesmo de outros diretores e produtores terem tido contato com o que eu fiz pro Aspirinas. daí eu fiz a trilha para um documentário de curta-metragem “Véio”, dirigido por Adelina Pontual. depois fiz a trilha para um curta de Daniel Aragão, “Uma Vida e Outra”. no começo de 2007 eu fiz um primeiro trabalho de trilha para dança e escrevi e produzi a trilha do espetáculo “Conceição”, do Grupo Experimental, daqui de recife.

ainda no primeiro semestre de 2007 eu recebi dois convites da Símio Filmes daqui de Recife, e fiz a trilha do documentário “KFZ-1348″, de Marcelo Pedroso e Gabriel Mascaro, e juntamente com o grupo Chambaril eu fiz a trilha para o longa “Amigos de Risco”, de Daniel Bandeira.

2. é muito diferente compor para o profiterolis e para um filme?

tomaz – é bem diferente porque quando eu componho para cinema eu faço um trabalho que vai ser um elemento de um projeto maior, no caso o filme. eu preciso conversar com o diretor e discutir que tipo de música vai ser feita, em que momentos do filme é necessário algum comentário musical e vou tentando me aproximar do conceito geral que o diretor já tem para dar minha contribuição dentro do que ele espera alcançar com o filme. é claro que no processo de compor e produzir a trilha acontecem muitas conversas, até mesmo porque a parte da trilha num filme precisa ser pensada com cuidado, uma trilha que não esteja adequada ao filme ou que não se misture bem com a imagem e o ritmo da narrativa pode terminar prejudicando a percepção do todo. então fazer trilha termina sendo um trabalho muitas vezes de precisão, porque não convém o exagero, encher o filme de música, e no que diz respeito ao lado mais prático o compositor na maioria das vezes trabalha com o filme já em processo de montagem e edição, ele não participou diretamente do processo de feitura do filme. o diálogo termina servindo pra aproximar o compositor de um processo que já vem se desenvolvendo, mas que ele só pega do meio para o final.

já na banda eu sou o diretor hehehe, então termina sendo um trabalho muito mais pessoal, até mesmo porque no caso da profiterolis eu canto as músicas que escrevo e por mais que um canção tenha um formato limitado (letra, duração, etc), ela sempre carrega alguma carga de comentário pessoal. eu particularmente acho mais dificil compor para a profiterolis porque na banda eu termino sendo o crítico inicial e final do meu trabalho, no fim das contas eu preciso estar atento ao que venho fazendo para não me repetir ou fazer alguma coisa que não seja interessante no momento.

num filme a coisa é mais prática e num certo sentido eu não parto do zero, eu já parto de uma boa quantidade de informações, da imagem, do roteiro, do ritmo da montagem, fora que a música de filme precisa deixar espaços vazios porque não convém acentuar ou enfatizar algum dado que já está sendo apresentado pela imagem, senão, como eu disse, a musica termina deixando o filme muito “carregado” e as coisas não fluem com mais naturalidade.

numa banda, acontece de vc precisar contar uma estória inteira musicalmente no espaço de 3 minutos, a música precisa “resolver o problema” todo sozinha, pois não tem imagem, não tem dialogo, é um processo completamente diferente, ao mesmo tempo mais simples porque é mais curto e direto e também mais complicado porque precisa ser executado ao vivo e por ser mais curto precisa ser mais sintético e nem sempre é fácil conseguir resumir alguma coisa em 2 ou 3 minutos.



3 Responses to “entrevista: tomaz alves souza”

  1. 1 Leal

    Às vezes eu vejo que tenho umas certezas e não sei de onde elas vieram. Uma delas é a de que Tomaz vai ser como Tomzé: um David Byrne vai descobrir a genialidade dele e um monte de gente vai ficar aqui dizendo “porra, como é que a gente deixou passar isso?”. Eu só espero que não demore tanto.


  1. 1 inventei uma tempestade pra me molhar « don´t touch my moleskine
  2. 2 pernambucanidade na tela « don´t touch my moleskine

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